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Carta de Edvard a seu neto



domingo 23 de fevereiro de 2014

“Edvar vive num povoado pequeno, nas periferias de Açailândia, profundo interior do Maranhão. Infelizmente, ele até hoje não é dono de sua história, porque reside onde ninguém gostaria de morar. Quando chegou em Piquiá gostou muito do nome daquela localidade, uma homenagem a uma das maiores árvores da região, com frutos gostosos.

Depois de poucos anos, porém, além dele chegou o “desenvolvimento”, que mudou até o nome do povoado transformando-o em “Pequiá”, acrônimo por “PetroQuímico Açailândia”. A própria “Cidade do Açaí”, outro fruto saboroso típico da região, perdeu o sentido de seu nome, onde progresso e respeito à vida não conseguem morar juntos.
Ao lado da casa de Edvar instalaram-se 14 fornos siderúrgicos, uma usina termelétrica e, agora, uma aciaria. Os seres humanos que moram na região são pouco mais que peças dessa máquina industrial.

Nós, missionários e companheiros desse povo sofrido tentamos acompanhar essa luta pelos direitos sócio-ambientais e, junto com eles, cultivamos a esperança e a utopia. Por isso, emprestamos a caneta ao seu Edvar, que escreveu essa carta para o netinho dele, recém nascido”.

Caro Moisés, me desculpe.
Quando você souber ler e conseguir entender minha carta, não sei se ainda estarei aqui (também porque dizem que toda essa poluição, além de partir o coração, mata os pulmões da gente!).

Mas desde já peço desculpa por entregar-lhe uma casa e um povoado tão sujo e destruído.
Tentei de muitas maneiras impedir toda essa violência, sabe?
Até os padres deram risadas quando souberam que um dia, desesperado, escrevi ao presidente Lula! Estudei atá a oitava série incompleta, não tinha ideia de quem podia me ajudar.

Mas o presidente me respondeu, viu?! Me disse de contatar “os órgãos encarregados”.
Graças a Deus que os padres e o Centro de Defesa se juntaram a mim e me orientaram. Eu sinto que são amigos.
Isso queria te dizer: escolha desde cedo amigos de confiança! Um amigo não é quem faz as coisas para ti, mas quem te incentiva e ensina como fazer acontecer um sonho.

Isso mesmo, um sonho. Sabe, Moisés, nunca perca seus sonhos.
Hoje em dia alguém pode até querer comprá-los, como fizeram as firmas do plantio de eucalipto com os meus colegas: compraram suas pequenas terras para dar espaço à monocultura, para produzir carvão para as siderúrgicas, e com isso muitos companheiros meus venderam seus sonhos por dinheiro.

Meu sonho sempre foi sair daqui. Claro, cheguei antes das siderúrgicas e teria direito de ficar em lugar delas. Mas essas firmas são poderosas demais e no começo não conseguimos levantar a voz nem impedir que se instalassem. Elas escolhem os lugares onde o povo é mais fraco, nos convencem com promessas vagas de trabalho e riqueza, e assim fazem a cabeça dos demais.

Quando chegaram, logo se levantou uma cortina de fumaça entre as firmas e nossas casas: além da poluição, me fez pensar que desde o começo tinham algo a esconder e que todas aquelas promessas não iriam se realizar tão facilmente.

Pouco tempo depois, uma enxurrada de eucaliptos chegou a invadir os nossos quintais e cercaram o povoado. Era a chamada “cortina verde”, para -dizendo eles- proteger as casas da poluição.

E assim, entre fumaça e esses palitos de eucalipto, aprendemos que as firmas gostam de levantar ’cortinas’ e esconder-se atrás delas.
Por um certo tempo, tentamos esmolar alguma benfeitoria desses ricos empreendedores: se tiveram tanto dinheiro para instalar as firmas, talvez com umas migalhas de sobra poderiam até transferir nossas casas numa região menos poluídas.
Um dia, Moisés, tomei coragem e fui conversar diretamente com o dono. Pensei: “meu neto ficará orgulhoso de mim!”. Pois é, ele me recebeu, me escutou... mas no final até zombou de mim! Disse que era fácil, disse que a firma tinha muitas pás carregadoras, dava para carregar as casas assim como elas estão e levá-las para qualquer lugar num outro bairro!

Fiquei triste e constrangido; pensei que nós pobres só valemos como enfeite quando as firmas querem mostrar algum gesto de “responsabilidade social”: um patrocínio para o time de futebol local, uma sessão de cinema para o povo se divertir, umas aulas de alfabetização para adultos, sem mais compromisso.

Minha revolta encontrou o apoio de outros e decidimos entrar na justiça. Um gesto corajoso: finalmente, pensávamos, essas firmas vão nos escutar. Éramos 21 famílias pedindo indenização por danos à saúde.

Mais uma vez nos organizamos sozinhos e fomos à luta. A beleza dessa luta é que a gente não cansa, e quando houver uma derrota, a gente reage com mais ânimo e convicção: é claro demais que a gente é vítima, há uma injustiça evidente! A lei não poderá se enganar: seremos ressarcidos!

Às vezes também os avós se iludem e sonham que nem um jovem inexperiente... afinal é a esperança que nos sustenta. Mas aprendi, Moisés, que a esperança é uma criança que precisa de duas irmãs mais velhas: a paciência e a sabedoria.

De fato, a justiça se enganou: até agora estamos esperando uma resposta dela, o processo avança lento demais, dizem que faltam provas suficientes, que não tem como indenizar...

Talvez a justiça seja cega, mas a minha impressão é que cheira bem e gosta do perfume dos que têm dinheiro. Não sei se posso dizer isso abertamente, Moisés, talvez vou me comprometer demais, mas escrevo só para ti assim que não se decepcione no futuro assim como aconteceu comigo.

O que te garanto, meu netinho, é que, apesar da decepção, seu avô nunca vai desanimar! Afinal estou lutando não para mim, mas para todas vocês crianças, que não merecem tudo isso.

Gostaria, para um dos seus próximos aniversários, te dar em presente uma nova terra, limpa, sadia, livre! É bem por isso que quando você nasceu tanto insisti para que seu nome fosse Moisés: a sua geração, tenho certeza, abrirá junto a nós novos caminhos de libertação e vida dentro desse modelo violento de desenvolvimento.

Aliás, tenho a impressão que para nós em Piquiá o caminho de libertação já começou há tempo. Reunir o povo muitas e muitas vezes sem que ninguém desanime é o milagre da resistência; conseguir manter uma única voz frente às empresas, sem ceder a possíveis propostas particulares e sedutoras que dividem o grupo, é o milagre da unidade.

Nessas semanas, além disso, algo novo aconteceu. O Ministério Público, pela pressão popular, entrou mais decididamente no conflito e fez uma proposta concreta de negociação.

Que orgulho poder sentar, finalmente de igual para igual, numa mesa de dialogo com os presidentes das empresas e dos sindicatos patronais, os advogados, os promotores... e esse seu avô simples mas corajoso!

Não cheguei ao presidente Lula, mas tenho conseguido fazer de minha condição humilde uma denúncia forte contra as contradições das empresas!
A gente vive em barracas, mas em cima de nossas cabeças passam trens da companhia Vale carregados de minério de ferro para exportação: 45 milhões de reais por dia.

Muitos meus amigos acabaram sendo demitidos pelas siderúrgicas no final de 2008, mas descobrimos que elas exportaram no mesmo ano mais de 138 milhões de reais, melhorando de muitos os patamares do ano anterior.

Pois é, Moisés, enquanto os pobres custam a sobreviver, os grandes continuam crescendo. Mas dessa vez a contradição está sendo gritante aos olhos de muitos, e esses empreendedores têm um medo danado de estragar sua imagem! Aqui no Piquiá costumamos repetir que também nossos gigantes têm os pés de barro!

Somos nós o barro desses poderosos: até quando ficarmos calados e obedientes, eles permanecem de pé. Mas se o barro começa a se mexer, meu amigo... saiam todos da frente!
Moisés: eu me mexi, também em teu nome. Espero que essa onda não se acalme mais.

Com carinho,
Teu avô Edvar